O pensamento corre solto junto ao corre-corre do dia que atravessa a vida lá fora. Sábado com cara de domingo. Domingo já com gosto da segunda que ainda vem. O tempo parece arrastado. Rompeu com todos os seus compromissos. Tempo anárquico que se nega a passar depressa quando o que me espera lá fora desse meu coração apertado de saudade é o cheiro de chuva. O calor. O amor. Pensar no caminhar do tempo me distancia de um viver no agora. Fico à espera, à espreita, de rabo de olho, esperando, ansiosamente esperando. Vai tempo, vai... às vezes é tão veloz e avassalador atropelando tudo e passando por cima de meus planos que eram futuros até dois minutos atrás e agora são tão presentes. Vai, segue em frente sem medo. Não pare para o descanso porque assim você me atrasa. Meu querer amar é ansioso. Deixa o dia chegar. Há muita coisa boa a minha espera. Lá fora!
Rendada. Estendida. Numa casa de madeira, com cheiro de guardado, ela se põe sobre a comprida mesa da cozinha. Encontro. Passagem. Pratos quentes e frios. Maçãs vermelhas. Sobre ela tudo se deita. Descanso de prato. Talheres. Copos de vidro embaçados. Guardanapos. É chegada a hora do banquete.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
sábado, 10 de julho de 2010
Um corpo que pede samba
Meu corpo inundado de samba está. Ritimado por Cartola, Noel e Arlindo. Nasci no berço dos bambas. Lá tem o verde e branco do Império, o azul e branco da Portela e também da pura Tradição. No coração de todo sambista sinto que há um tamborim no lugar. Aquele que bombeia o balançar dos pés, dos quadris e de da voz para um corpo inteiro que canta. Que faz samba ecoar. Madureira é também o meu lugar. Gosto da voz suave do querido mestre Arlindo a cantar o nosso lugar. Muito caminhei por lá. Lembro-me dos domingos de sol com a sonora trilha dos grandes mestres. Daquela batucada que sapateava no miuidinho. Daquela grande celebração. Pipas coloridas no ar, picolés a derreter na boca, pés sujos e descalços, bicicletas, patins, bola, futebol, mengão, crianças, cachorros, adultos, ávores, sol, calor, ardor, fervor, gente. Pequena criança que era já se encantava com aquele domingo-de-samba. Quando ouço samba danço vozes, cores, amores, paixões, alegrias, sensações, afeto. Danço e sambo mangueira. Gosto do verde e rosa. Cores de um mestre. De uma vida de samba cantada por Cartola. Assim como ele, a sorrir pretendo levar a vida. O samba flui em mim como um rio. Livre. Entregue. Acompanhado apenas pela verde margem que o segue. Sou um corpo que pede samba.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Um pouco de Clarice
"Eu sou atrás do pensamento. Escrevo no estado de sonolência, apenas um leve contato do que estou vivendo em mim mesma e também uma vida inter-relacional. Ajo como uma sonâmbula. No dia seguinte não reconheço o que escrevi. Só reconheço a própria caligrafia. E acho certo encanto na liberdade das frases, sem ligar muito para uma aparente desconexão. As frases não têm interferência de tempo. Podiam acontecer tanto no século passado como no século futuro, com pequenas variações superficiais. A individualidade minha estrá morta?" Clarice Lispector
Um sopro de vida (pulsações) - p.72 - Clarice Lispector
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Lá e cá tudo junto
O dia amanhece. Acorda depois de um longo descanso. Quando aqui é dia lá é noite. Acho curioso tudo isso. De um mundo sempre misto. Enquanto uns dormem outros amanhecem. Estou abaixo da linha do Equador. Naquilo que chamam de Sul América. Curioso isso tudo. Nomes que se criam. Territórios que se armam. Que bobagem tamanha essa nossa. Sejamos sem fronteiras. Fluidas fronteiras. Desterritorializar é um bom caminho. Permite o cruzamento. A interseção. Somos um grande emaranhado de linhas. Somos um imenso novelo redondo chamado planeta. Terra nossa. Greenwich meriadiano que nos funde. Linha do equador que nos enlaça. Sejamos uma confusão de tanta coisa junta. Sejamos, sendo, ser. Vivamos!!!
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