terça-feira, 31 de agosto de 2010

Salto

Um tanto de folhas espalhadas pelo chão e lançadas ao vento. Tempo. Nele acomodo o cansaço de dias corridos e mal dormidos. De noites estreitas e de cobertores curtos. Cubro o pé gelado em busca de maior conforto. Tento entregar o corpo dolorido as curvas estranhas da cama. Mal se deita já é hora de despertar para o dia. É preciso estar de pé ainda que a cabeça esteja na cama. Grudada no travesseiro branco que a esta hora já deve estar guardado no armário. A semana já começou e eu ainda vivendo o fim de semana que passou. Será que está na hora de me desprender do tempo, que tanto falo, e me jogar no vazio da não marcação das horas? Quero o gosto de música antiga embalando meus dias e noite de ninar. Quero dançar disforme a música. 

sábado, 21 de agosto de 2010

Nascidas de Leila

Diante da espera absoluta, sentada em uma cadeira bonita de madeira, com almofada acolchoada vermelha com tons em laranja, adormeço. Linhas se espalham pelo tapete da sala. Estou a tecer um casaquinho de lã para o filho que ainda nem tenho. Faço sapatinhos para agasalhar pequeninos pés. Tranquila espera daquilo que me faz lembrar o futuro. Mulher-canguru que somos. No ventre materno nosso carregamos como que em sacolas bonitas de feira o mais belo fruto. Cheiro doce de fruta tirada do pé. 
Tenho uma irmã poucos anos mais nascida que eu. Ela veio ao mundo esperada e bem querida. Minha mãe a aguardava sentada no sofá da sala conversando com aquela gigante barriga-casa que acolhia a pequena Manu. Eram conversas longas que atravessavam a madrugada e terminavam com mistura de bocejos e gargalhadas junto ao nascer do sol. Hoje, a pequena encontra-se beirante às margens de sua própria casa e vida. Tece fragmentos de histórias e lembranças em sua pequenina casa de pouco cômodos. Juntou-se a outro menino, bem nascido antes de mim. Hoje juntos partilham de momentos comuns. Bonitos. Raros. Musicais. São escritas sonantes de suas histórias. Tecidas em versos e palavras mais que sonoras, palavras vivas. Desse enlace há de nascer boa coisa. Menino ou menina docemente eletrizante. Embalado por canções de extra-ninar.

sábado, 7 de agosto de 2010

Corpo brando

Estava eu em febre alta numa noite longa de lua fina. Noite daquelas em que o céu está em azul breu e o clarão da lua vem banhar o meu quarto, que fica logo aqui no fundo da casa. Atravessa a janela entreaberta. Gosto de um pouco de vento pela noite. Gosto de respirar o branco da lua. Gosto de ar. Tenho medo de sufocar-me em palavras. De deixar-me engasgar pelo anseio de palavras bem e mal ditas. Há calor em meu corpo. Estou em fogo laranja ou já sou brasa? Acho que virei cinza. Mas não temo. Renasço logo de manhãzinha. Pego um livro para ler, logo adormeço. Entro em estado de vigília ao me embebedar de palavras que não vem de mim. Voz aguda em variável nota dó. Tece palavras graves para a menina que estás a escutar. Gosto de ouvir coisas bonitas. Palavras ritimadas e vozes que não vem de mim. Porém acho que sou pouco resistente. Livro. Abro. Pouco leio. Adormeço. Penso nele enquanto sonho. Acordada sonho enquanto deito. Ele me acompanha pelas manhãs frias de inverno. Na verdade atravessa comigo todas as estações. Gostamos de cores. Ele gosta de filmes. Eu pouco os vejo, tenho sono. Sonolência audio-gráfica que me persegue. Ele sorri da minha falta de competência em me manter acordada. Gosto quando ele sorri. Gosto quando ele me beija. O corpo segue quente nessa madrugada fria de agosto. Vou fechar os olhos e esperar o(a)manhã que vem. Alguém virá me acordar. Durma com os anjos.