quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Navegante

Um pouco antes da partida os navegantes juntaram-se na área externa do navio e começaram a dançar. Cantar. Movimentar os corpos a fim de aquecê-los antes da partida. Os momentos que antecedem o embarque são sempre tensos e calorosos, frescos e curiosos e invariavelmente atravessados por uma leve espera ansiosa. Fazia calor naquela tarde de sexta-feira. Aos prantos os corpos suavam. Deixavam água escorrer. Mar. Rio. Dilúvio. Maré. Poucos minutos antes da viagem cantarolamos música já conhecida por nós, olhamos uns para os outros. Sorrimos. Éramos beleza. Tons pastéis, dourado e bronze. Cabelos semi-presos, roupas semi-amassadas e corpos por inteiro. Na entrada do convés, pedras. Cantos. Pouca luz. É chegada a hora. Aos poucos tripulantes vindos de vilarejos e lugares diversos começam a ocupar o navio. Burburrinho. Silêncio. Olhares. Todos se acomodam e aguardam o soar do último apito para que seja dada a partida. Partimos... lá vamos nós. Rumo à Ítaca. A nossa Ítaca. Musas, aedos e ilhas distantes. Cantos estridentes e suaves de sereias. Calor. Suor. Família por perto. Minha mãe bem ao lado a me observar. Amigo próximo. Gente querida. Ao longo da viagem fui reconhecendo pessoas. Cumprimentando-as. Um olhar daqui um olá de lá. Éramos pura felicidade.Sentia-me estranhamente em casa. Aos poucos o corpo encharcado de suor e lágrimas ia perdendo-se em passos largos. A voz também foi desaparecendo aos poucos. Alegria e angústia juntas, lado a lado. O navio pára. Faz um forte calor. Mais um dia de viagem. Rastros de pedras, água espalhada pelo chão. Bacia de prata. Pés descalços. Ouço vozes. Danço canções. Sou recebida com abraços. Em casa estou, junto à família. Beijos, abraços calorosos e sorrisos nos ocupam. Todos ali tão próximos. Memória viva se manifesta em arrepio no corpo. Como foi bonito aquele três de dezembro de dois mil e dez. Partida Chegada. Encontros.   

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Quando bate a saudade

Coração aperta, tempo pára, olhar fica disperso e eu longe.
Pensamentos voam alto, a caminho daquilo que do outro lado da montanha me espera.
Vem, vem pro mar amor!
Vem sentir o calor dos braços meus!
Sinto falta do cheiro, do toque e do amor. Seu. Meu. Venha!
Chegue logo e vamos juntos abraçar o mar.
Quero sentir seu gosto e seu corpo junto do meu.
Ê saudade que aperta esse coração que espera.
Bebo baldes de água, escrevo poemas e sinto no corpo a falta.
Cama vazia, silêncio.
Quero sua voz a me acordar. Quero cama cheia e corpo. Quero amor!
Venha!
Chegue depressa e me coloque no colo.
Dance comigo.
Vamos namorar! Paixão minha, alegria que me ocupa.
Venha!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

De volta à casa


Reencontro a praia, o mar, o calor, o bafo de calor, o suor que mela, o samba e os amigos de para sempre. Sinto amor de irmãs e sorriso de pai. Danço no tapete da sala com a Lelê e ela dá umas risadas ótimas. Ouço o chiado de xis que se arrasta nas palavras e vem uma alegria boa. Minha cidade é maravilhosa e continua lindo. Vou até Madureira lembrar do meu lugar. Durmo com o blusão do meu pai e ele coça as minhas costas. De Ítaca me aproximo.  Minha Ítaca tem sotaque carioca. Ai, que vontade de abraçar a Nunu! Almoço de domingo que se estende até as conversas do café da tarde da segunda. Cheiro de lanche. Pão de Açúcar. Redentor que nos proteja e livrai-nos de todo mal. Mal chego e logo arrepio. Mal observo e tanto percebo. Cheguei em casa. Em terra minha, em cidade que me ocupa. Aquilo que antes se apresentava a mim como mais do mesmo, agora, incrivelmente, salta aos meus olhos como paisagens vivas. Lágrimas ao atravessar as linhas - amarela e vermelha - que cortam esse Rio que tomo como meu, como parte de mim. Seria possível isso se talvez estivesse por perto? Acho que a distância nos reapresenta a nossa própria casa. Como passei a observá-lo de maneira mais cuidadosa. Aquilo que escapava-me as vistas, agora é pintura que da cor à memória. Viva! Pôr-do-sol no Arpoador e o samba na Portela. Tom, Vinícius, Cartola, Jamelão e tantos outros que cantavam o Rio. Salve toda gente desse lugar e  todo lugar dessa gente. Salve a simpatia carioca! Salve Jorge!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Doce três de novembro





Lá nasceu. Era noite do dia três de novembro de 2007. Ainda se via a sobra de um feriado atravessando um sábado inquieto. Um fim de semana tão querido e pouco ocupado. As horas passavam e não se via nem sinal de abraço. Apenas o aguardava em uma angustiante espera. Encontrei-o. Depois de tantos achados e perdidos senti o primeiro suspiro de amor. O primeiro olhar, daquele que tanto queria, cruzava-se com o meu. Tratei de vestir a roupa mais bonita e igualmente confortável. Nesse momento de tanta alegria sentia-me pela primeira vez reconhecida. Um reconhecimento quase farejante. Ele queria toque. Eu queria toque, amor e beijo. Deu certo. Acho que ele gostou de mim. Finalmente, após um ano e meio de namoro solitário havia encontrado meu par. De fato ele existia e naquele momento mostrava-se disposto e levemente animado em seguir em frente. Curiosamente eu entendia a sua sutíl dificuldade em caminhar junto. Sua pouca idade o fazia ter medo do escuro. Do vazio. Do encontro. Um com dezessete e outra prestes a completar dezoito. Número pequeno que se fazia infantil diante de um amor grande. Como encarar aquilo que chega cedo e te solicita tão logo? O amor que vem logo de manhãzinha e me ocupa até o entardecer. Como posso querê-la para sempre se ainda pouco a conheço e pouco de todo o muito do mundo também? Era preciso viver. Ainda havia muita vida pela frente e não era possível esbarrar em uma amor naquela altura. Deu certo. O amor à primeira vista tem me ocupado por anos a fio. Quando meus olhos descansaram sobre ele, na primeira vez em que o vi, senti que algo de novo em mim nascia. A estranheza de um amor desconhecido e nem sequer ainda vivido despertava-me lembranças e memórias. Simplesmente já o amava sem nem ao menos lhe contar meu nome. Prazer, você aceita tomar um sorvete comigo? Deu certo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Árvore solitária

Grandes montanhas verde musgo. Tapete gramado que encobre o mar de montanhas. Para além delas sinto cheiro de água limpa e salgada, de oceano mergulhante no mais profundo azul. Em meio a tantas e tantas montanhas irmãs encontro uma na qual brotou uma árvore solitária. Ela tem o caule fino e sua copa é bastante larga e ocupada por folhagens nos mais diversos tons de verde. Vejo uma menina sentada sob sua sombra refrescando-se com o ar do dia e com as palavras doces do livro que lê. Nas mãos finas de menina moça ela carrega seu livro de poucas páginas. A capa tem o tom de rosa claro mesclado com vermelho telha. Não sê vê desenhos, apenas poucas palavras. Frase curta que dá nome ao livro. A menina sorri, um daqueles sorrisos entre lábios. Seus cabelos estão soltos e seus pés descalços. Encostada no tronco da fina árvore com a cabeça levemente inclinada ela lê. Alternância de leitura e cochilo. Livro e leve sono. Seus olhos descansam sobre sua face de pouca idade. É fim de tarde. O sol atravessa as folhas desenhando no ar caminhos de luz. Há um leve calor. A suar estão as mãos da menina. O livro escorrega dançante. Não cai. Não alcança o tapete verde da montanha. Apenas cambaleia entre as mãos da menina. O sol começa a se despedir. Já é quase noite. Uma fatia de lua nasce no céu trazendo com ela uma pequenina estrela brilhante. O céu é uma mistura de dia e noite. O amarelo alaranjado com vestígios de vermelho se mistura ao azul claro e breu. Já é noite. A menina levanta. Embaixo de seu braço direito, entre braço e corpo, está o livro. Fechado. Daqui se vê apenas a capa.  

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dias corridos


À esperar estou. Sempre. Navegando por entre linhas e linhas de páginas em branco, deixando marcas de minhas impressões do dia. As palavras que me saltam da boca são vestígios de memória boa e coração frágil. Sensível ao vento e ao tempo. Sou bastante ocupada durante os dias enfileirados da semana.
Na segunda renasço para a brancura dos novos dias, desconhecidos ainda ao meus olhos. Porém, sempre carrego pedaços, restos do fim de semana que passou.
Na terça de fato abro os olhos, bem cedinho, logo pela manhã e saio na caça de afazeres perdidos.
Na quarta estou nova em folha. Sinto-me como o verde de uma fruta pré-recolhida do pé. Ainda não muita madura. Já é meio de semana e já me anseio para o fim de semana próximo, que logo em breve chegará.
Na quinta sorrisos já me tomam facilmente. Não temo o dia longo e denso que me espera. Salto da cama, lavos os cabelos, tomo café bom e caminho por cada curva do dia, que termina bem tarde da noite.
Sexta é festa. Mesmo em dias frios e cinzas a sexta é ensolarada dentro de mim. Estampo alegria fresca no rosto, visto minha melhor roupa Rio de Janeiro e saio pelas ruas navegante a desbravar cada curva do imenso mar. Mergulho. Refresco-me. Do nascer até o momento da poente sexta descansar aproveito. Danço, sorrio e brilho alegremente. Sem ao menos me cansar ou arranhar minha voz rouca, herança genética de família.
Abraço o fim de semana que chega. Dou-lhe boas vindas e recebo-lhe com flores colhidas no jardim. Sábados e domingos marcados na lembranças. Registro que não escapa aos olhos do olfato e ao doce sabor de meus olhos. Impressos ficam os fins de semana em minha cabeça. Momentos nascidos de sábados e domingos bem vividos.

domingo, 26 de setembro de 2010

E assim se fez o parto

É bom saber que se vem ao mundo já com pessoas queridas à sua espera. Nem ao menos conhecem seu rosto e já a acolhem com um abraço caloroso de amigo de infância. Chego e logo ao abrir dos olhos encontro traços comuns aos meus desenhados em faces que estão para além de mim. Já existia nesse grande mundo novo, no qual acabo de chegar, uma família rendada por linhas variadas e coloridas. Essa família que chamo de minha. Deram-me nome, água, colo e amor eterno. Presentearam-me com roupas pequeninas, sempre com a estranha predominância do rosa (cor de bebê-menina achavam eles), que mal mal cabiam em mim. Nasci grande, gorda e enrugadamente rosada, mesmo assim consideravam-me parecida com um pai que pouco ainda conhecia., mas  que de primeira já amei. Mamãe sempre me guardou naquela sua grande barriga-casa, logo já havia certa intimidade entre nós. Minha primeira e grande confidente era a pessoa que eu mais iria amar por toda a vida. A intimidade entre nós era tão grande, que logo logo ela confiou-me um presente que ela mesmo produzira anos antes de eu nascer. Artesanalmente ela me fez irmã. Entregou-me Manu de presente e disse surrante em meu ouvido: cuidem-se..Assim imagino eu. Acho bonito pensar coisas que minha mãe teria me dito quando ainda era muito pequena. Cabeça de menina tende a guardar pequenos prazeres e histórias. Aquelas duas, tão lindas, já eram parte de mim. Papai também já me ocupava. Ah, havia também vovó. Aquela que coincidentemente era também um pouco enrugadamente rosada como eu. Não entendo porque as pessoas não perceberam isso. Naquele início de vida eu era muito mais vovó do que papai. Com o passar do tempo os traços de meu rosto ganharam formas daquele homem que também, artesanalmente, havia me feito. Curiosamente saltavam-me da boca palavras inventadas, nascidas de minha liberdade de criança. Numa dessas comecei a descobrir a graça da conversa. Do bate-papo descompromissado com alguém que se quer por perto. Ela me escutava. Era minha querida ouvinte. Logo nomeia-a Katchuca. Docemente ela entrou na brincadeira da sonante palavra viva de criança e deu-me novo nome: Calite. O som me interessava. Ela me conquistou para sempre.

Navegante eu ia caminhando pelas curvas da tão recente vida. Passos curtos de menina a desequilibrar a cada novo avanço. Senti o gosto da lágrima. A delícia do sorriso solto. Finalmente acho que nasci. Logo na chegada, também já encontrei primos, tios e tias, amigos, até padrinho e madrinha eles já tinham separado para mim. É engraçado pensar que você já existe antes mesmo de chegar ao mundo. Se você inesperadamente sorri por causa de toda aquela situação estranha, uns fotografam, outros escrevem e muitos choram. Quantas espectativas precedem uma chegada. Chegando ao lar encontrei quarto para mim, cama pronta, leite disponível em seio de mãe para bebê embebedar-se e muita gente, que sem motivo qualquer,  me amava. Ah, que delícia! pensei eu. Cheguei em casa.

sábado, 25 de setembro de 2010

Viagem

De malas arrumadas parti para uma breve viagem. Poucas roupas, água de cheiro e algumas memórias recolhidas em uma caixinha amarela enrolada com uma bela fita dourada. Carrego pequenos rastros e vestígios de imenso amor que colorem e ocupam todos os dias de minha vida. Pessoas queridas, palavras doces e grafias descansadas em cartas antigas que ainda guardo na última gaveta do armário. Antes da partida observo cada canto da casa e despeço-me dos bichos e de toda a gente. Beijo na bochecha de mãe e saio. Abandonada no tempo e no vento, lançando-me ao prazer e desprazer de viver o desconhecido. Não é nada fácil ceder momentos-só para aquilo que tanto se gosta. Mas era preciso olhar de cima o que sempre ao meu lado está. Foi bom. Bonito. Sinto-me agradecida. Aliás, foi essa viagem que me fez entender o que é agradecimento. Palavra viva, manifesta em corpo acordado e que se curva diante do outro na mais pura alegria da carícia. Sentir-se acareciado por aquilo que do outro vem.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Salto

Um tanto de folhas espalhadas pelo chão e lançadas ao vento. Tempo. Nele acomodo o cansaço de dias corridos e mal dormidos. De noites estreitas e de cobertores curtos. Cubro o pé gelado em busca de maior conforto. Tento entregar o corpo dolorido as curvas estranhas da cama. Mal se deita já é hora de despertar para o dia. É preciso estar de pé ainda que a cabeça esteja na cama. Grudada no travesseiro branco que a esta hora já deve estar guardado no armário. A semana já começou e eu ainda vivendo o fim de semana que passou. Será que está na hora de me desprender do tempo, que tanto falo, e me jogar no vazio da não marcação das horas? Quero o gosto de música antiga embalando meus dias e noite de ninar. Quero dançar disforme a música. 

sábado, 21 de agosto de 2010

Nascidas de Leila

Diante da espera absoluta, sentada em uma cadeira bonita de madeira, com almofada acolchoada vermelha com tons em laranja, adormeço. Linhas se espalham pelo tapete da sala. Estou a tecer um casaquinho de lã para o filho que ainda nem tenho. Faço sapatinhos para agasalhar pequeninos pés. Tranquila espera daquilo que me faz lembrar o futuro. Mulher-canguru que somos. No ventre materno nosso carregamos como que em sacolas bonitas de feira o mais belo fruto. Cheiro doce de fruta tirada do pé. 
Tenho uma irmã poucos anos mais nascida que eu. Ela veio ao mundo esperada e bem querida. Minha mãe a aguardava sentada no sofá da sala conversando com aquela gigante barriga-casa que acolhia a pequena Manu. Eram conversas longas que atravessavam a madrugada e terminavam com mistura de bocejos e gargalhadas junto ao nascer do sol. Hoje, a pequena encontra-se beirante às margens de sua própria casa e vida. Tece fragmentos de histórias e lembranças em sua pequenina casa de pouco cômodos. Juntou-se a outro menino, bem nascido antes de mim. Hoje juntos partilham de momentos comuns. Bonitos. Raros. Musicais. São escritas sonantes de suas histórias. Tecidas em versos e palavras mais que sonoras, palavras vivas. Desse enlace há de nascer boa coisa. Menino ou menina docemente eletrizante. Embalado por canções de extra-ninar.

sábado, 7 de agosto de 2010

Corpo brando

Estava eu em febre alta numa noite longa de lua fina. Noite daquelas em que o céu está em azul breu e o clarão da lua vem banhar o meu quarto, que fica logo aqui no fundo da casa. Atravessa a janela entreaberta. Gosto de um pouco de vento pela noite. Gosto de respirar o branco da lua. Gosto de ar. Tenho medo de sufocar-me em palavras. De deixar-me engasgar pelo anseio de palavras bem e mal ditas. Há calor em meu corpo. Estou em fogo laranja ou já sou brasa? Acho que virei cinza. Mas não temo. Renasço logo de manhãzinha. Pego um livro para ler, logo adormeço. Entro em estado de vigília ao me embebedar de palavras que não vem de mim. Voz aguda em variável nota dó. Tece palavras graves para a menina que estás a escutar. Gosto de ouvir coisas bonitas. Palavras ritimadas e vozes que não vem de mim. Porém acho que sou pouco resistente. Livro. Abro. Pouco leio. Adormeço. Penso nele enquanto sonho. Acordada sonho enquanto deito. Ele me acompanha pelas manhãs frias de inverno. Na verdade atravessa comigo todas as estações. Gostamos de cores. Ele gosta de filmes. Eu pouco os vejo, tenho sono. Sonolência audio-gráfica que me persegue. Ele sorri da minha falta de competência em me manter acordada. Gosto quando ele sorri. Gosto quando ele me beija. O corpo segue quente nessa madrugada fria de agosto. Vou fechar os olhos e esperar o(a)manhã que vem. Alguém virá me acordar. Durma com os anjos.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Saudade

O pensamento corre solto junto ao corre-corre do dia que atravessa a vida lá fora. Sábado com cara de domingo. Domingo já com gosto da segunda que ainda vem. O tempo parece arrastado. Rompeu com todos os seus compromissos. Tempo anárquico que se nega a passar depressa quando o que me espera  lá fora desse meu coração apertado de saudade é o cheiro de chuva. O calor. O amor. Pensar no caminhar do tempo me distancia de um viver no agora. Fico à espera, à espreita, de rabo de olho, esperando, ansiosamente esperando. Vai tempo, vai... às vezes é tão veloz e avassalador atropelando tudo e passando por cima de meus planos que eram futuros até dois minutos atrás e agora são tão presentes. Vai, segue em frente sem medo. Não pare para o descanso porque assim você me atrasa. Meu querer amar é ansioso. Deixa o dia chegar.  Há muita coisa boa a minha espera. Lá fora! 

sábado, 10 de julho de 2010

Um corpo que pede samba


Meu corpo inundado de samba está. Ritimado por Cartola, Noel e Arlindo. Nasci no berço dos bambas. Lá tem o verde e branco do Império, o azul e branco da Portela e também da pura Tradição. No coração de todo sambista sinto que há um tamborim no lugar. Aquele que bombeia o balançar dos pés, dos quadris e de da voz para um corpo inteiro que canta. Que faz samba ecoar. Madureira é também o meu lugar. Gosto da voz suave do querido mestre Arlindo a cantar o nosso lugar. Muito caminhei por lá. Lembro-me dos domingos de sol com a sonora trilha dos grandes mestres. Daquela batucada que sapateava no miuidinho. Daquela grande celebração. Pipas coloridas no ar, picolés a derreter na boca, pés sujos e descalços, bicicletas, patins, bola, futebol, mengão, crianças, cachorros, adultos, ávores, sol, calor, ardor, fervor, gente. Pequena criança que era já se encantava com aquele domingo-de-samba. Quando ouço samba danço vozes, cores, amores, paixões, alegrias, sensações, afeto. Danço e sambo mangueira. Gosto do verde e rosa. Cores de um mestre. De uma vida de samba cantada por Cartola. Assim como ele, a sorrir pretendo levar a vida. O samba flui em mim como um rio. Livre. Entregue. Acompanhado apenas pela verde margem que o segue. Sou um corpo que pede samba.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Um pouco de Clarice

"Eu sou atrás do pensamento. Escrevo no estado de sonolência, apenas um leve contato do que estou vivendo em mim mesma e também uma vida inter-relacional. Ajo como uma sonâmbula. No dia seguinte não reconheço o que escrevi. Só reconheço a própria caligrafia. E acho certo encanto na liberdade das frases, sem ligar muito para uma aparente desconexão. As frases não têm interferência de tempo. Podiam acontecer tanto no século passado como no século futuro, com pequenas variações superficiais. A individualidade minha estrá morta?"  Clarice Lispector

                                          Um sopro de vida (pulsações) - p.72 - Clarice Lispector

                                                                                                                                 

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Lá e cá tudo junto


O dia amanhece. Acorda depois de um longo descanso. Quando aqui é dia lá é noite. Acho curioso tudo isso. De um mundo sempre misto. Enquanto uns dormem outros amanhecem. Estou abaixo da linha do Equador. Naquilo que chamam de Sul América. Curioso isso tudo. Nomes que se criam. Territórios que se armam. Que bobagem tamanha essa nossa. Sejamos sem fronteiras. Fluidas fronteiras. Desterritorializar é um bom caminho. Permite o cruzamento. A interseção. Somos um grande emaranhado de linhas. Somos um imenso novelo redondo chamado planeta. Terra nossa. Greenwich meriadiano que nos funde. Linha do equador que nos enlaça. Sejamos uma confusão de tanta coisa junta. Sejamos, sendo, ser. Vivamos!!!

sábado, 26 de junho de 2010

Manhã de sábado


Acordo encoberta por cobertor azul céu, presente de pessoa querida. É inverno. Está frio lá fora. O sol aparece tímido nesta manhã. Honesto. Generoso. Discreto ocupa uma parte do grande céu azul. Há pessoas caminhando na rua. Crianças e cores. Cachorro latindo. Amores perdidos. Encontros ao acaso. É sábado. Lá fora ainda há o rastro da sexta que passou. Ouço vozes na calçada. Risadas da casa vizinha me visitam. Uns chegam. Outros vão. É tempo de visita. Cheiro de café no quarto. Corpo quente fora da cama. Pão na chapa. Manteiga derrete. Quero leite na xícara verde mãe! Não é xícara, é caneca. Boca larga. Apertado o café se espreme   no fundo preto da caneca não-xícara de boca larga. Engraçada manhã esta que chega. Bem no sábado o despertador toca às oito. Creio que ele não teve uma boa semana. Ansioso ele atropela o tempo. Descansa que ainda é sábado, falo com ele. Ele me ouve. Se cala. Dorme. Eu já desperta levanto. Coloco roupas leves. Mergulho no copo vermelho de água. Broa de fubá. O café da manhã não se colocou hoje à mesa. O convite veio da cozinha. Como. Bebo. Levanto. Lavo. Água fria escorre da pia. Dentes escovo. Passo cor nas maçãs do meu rosto. Saio.