domingo, 29 de janeiro de 2012

Ainda pequena descobriu a vida

Houve um tempo em que a tempestade escorria pelas canaletas do corpo e pela janela dos olhos da menina. Ainda pequena, bem cedo, descobriu a dor. A dor que não se vê. Nada de feridas, joelhos ralados ou machucados conquistados após a correria suada pelo quintal. Era uma dor silenciosa que perambulava pelo corpo miúdo que mal se cabia em pé quando caía no choro. Era uma dor tão dura que nem tinha cor. 
Logo descobriu, pé ante pé, que geniosa e cuidadosamente o tempo passa. E cura. E guarda. E lança. E transforma. Faz da gente lugar, de passagem e de sonhos. Faz da gente corpo vivo. Que sente, que mobiliza, que se deixar afetar, que se reconhece como recanto de amor. 
Logo a tempestade se fez chuva fraca até virar chuvisco. Os olhos ainda marejam, mas a menina não mais teme a dor. Sabe que se há movimento, há vida. Descobriu ela, bem logo, que para ser vivo é preciso deixar-se acontecer.









quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Corpo-mar


Como depois uma onda, que leva o corpo em derrubada, levanto e renasço para o novo dia. Com os cabelos ainda bagunçados e com um tanto de grãos de areia entre os dedos refaço o caminho de volta. Faço dele ida. Encarando o mundo e os castelos de areia.
Um pouco de mim vai ficando pra trás em um rastro de pegadas que se desenha na areia fofa. Lanço pedaços de miolo de mim pelo caminho para não me p
erder ao longo?
Logo, logo minhas pegadas são aguadas pelo mar, que de maneira gentil retorna, dessa vez sem sequer ultrapassar minha canelas, para refrescar meus passos e renovar minha caminhada.
Agora reconheço. O encontro do corpo com o mar revolto foi o melhor abraço chacoalhante que já recebi em toda a minha vida.