Houve um tempo em que a tempestade escorria pelas canaletas do corpo e pela janela dos olhos da menina. Ainda pequena, bem cedo, descobriu a dor. A dor que não se vê. Nada de feridas, joelhos ralados ou machucados conquistados após a correria suada pelo quintal. Era uma dor silenciosa que perambulava pelo corpo miúdo que mal se cabia em pé quando caía no choro. Era uma dor tão dura que nem tinha cor.
Logo descobriu, pé ante pé, que geniosa e cuidadosamente o tempo passa. E cura. E guarda. E lança. E transforma. Faz da gente lugar, de passagem e de sonhos. Faz da gente corpo vivo. Que sente, que mobiliza, que se deixar afetar, que se reconhece como recanto de amor.
Logo a tempestade se fez chuva fraca até virar chuvisco. Os olhos ainda marejam, mas a menina não mais teme a dor. Sabe que se há movimento, há vida. Descobriu ela, bem logo, que para ser vivo é preciso deixar-se acontecer.

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