quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Daqui vejo rosas



As janelas estão embaçadas. Dei aquele sopro infantil que lança ar quente boca a fora e faz todo o vidro suar. Daqui de dentro vejo a roseira no jardim. Há algumas pétalas no chão. As flores fazem um dia cinza chuvoso parecer um pouco mais atraente. Sinto cheiro de terra molhada e ouço o gemido do dia lá fora. O vento esparramado pelo tempo carregando restos que descansam por lá. Não há pessoas na rua. Não há crianças, nem pés descalços a correr pelo bairro. Todos estão a dormir e eu aqui acordada a observar o dia que não passa. Esgarçado ele se estende nesta segunda-feira de agosto. 
Faz frio. Meus pés estão protegidos por meias grossas de lã que jamais pensei usar. Meus dedos dos pés estão suados e enrugados. Aquela mesma sensação de quando se fica muito tempo mergulhado em água. Visto roupas velhas, aquelas que guardamos em gavetas especiais. As gavetas das roupas usadas. As novas estão à espera ansiosa de um dia de sol. Querem passeio, querem encontros. Terrível esse preconceito com o gasto. O casaco antigo que tenho desde os doze anos e que ainda me serve vira companhia caseira, sem direito de pôr os pés na rua. De que adianta ser durável se logo logo me encanto pelo novo que chega? 
Bobagem toda essa. Mudei o rumo da prosa. Da boa conversa que estava afiando comigo mesma e partilhando em algumas palavras aqui, com você. Os pensamentos são assim mesmo, passageiros como os andarilhos que ficam de lá pra cá. E como eu, que vou de um ponto ao outro de uma história sem me preocupar com o rumo que ela vem tomando. Acho que sou uma mistura de roseira no jardim, dia chuvoso, roupas antigas e novas. Emaranhado de coisas simples que somos. Sinto-me como um rio prestes a desaguar. Bonito o encontro generoso do rio com mar. Vim de lá. Das águas salgadas, dos dias ensolarados e das manhãs quentes logo tão cedo. Ainda estou aqui. Parada em frente a embaçada janela da sala. Estou com o olhar disperso. Ele atravessa o vidro e descansa sobre uma rosa solitária. Nada vejo. Olhos abertos e poucos vivos. Embaçados. Pensamentos pouco claros e limpos como o dia de hoje. Acho melhor voltar para cama. Que venham bons sonhos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Um olhar escorre

E assim se fez o dia

Respiro gotas do dia
Beijo retratos de família e lembranças de infância
Leio cartas enviadas por um amor
Ouço músicas antigas, descubro novas.
Ao cair da noite refaço na mente o trajeto do dia
Deito na minha cama semi bagunçada. Esparramada entre as milhares de almofadas feitas por mamãe. Adormeço, mas logo desperto.
Não quero perder o dia que cai lá fora,
Nem aqui dentro.
Leio livro, presente de irmã
Sinto bom cheiro de pós-banho que vem lá do banheiro da mamãe.
Ela está linda com o seu hobby de seda branco
Seus cabelos curtos e louros estão úmidos, na fase do quase seco.
Ela está linda como sempre!
De rabo de olho pego-me olhando para o espelho,
Um que fica bem próximo do meu armário levemente mofado.
Estou com os cabelos soltos, pele boa e roupa confortável.
Sinto-me bem.
Feliz.
Bonita noite que se faz hoje
Bonitos são os rastros desse bom dia que vivi.
Risadas na cama num movimento entre braços, com ele.
Ele sorri, eu admiro.
Ele me observa, eu sinto carinho.
Gosto de sentir seu olhar
Gosto de sentir a leveza de sua alegria descompromissada com o amanhã.
O sorriso que se estampa no hoje, mas que planeja casamento.
Somos feitos um para...
o amor do outro.
Belo dia esse que se fez hoje. 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Lugares


Um pedaço de chão. Pouco espaço para o caminhar. Palavras perdidas. Vozes em eco. Vazio sem gente. Falta. Quero marcar minhas pegadas nesse pouco chão que vejo. Quero dispersar minha voz por esse espaço oco que me faz sentir falta do barulho das crianças. Aquelas boas gargalhadas que atravessam a boca destentada da menina dentes-de-leite. Espaços. Gosto de tudo aquilo que me ocupa. Que me faz bem querer mais o cheiro do outro. Gasto dias e dias, arrasto-me em madrugadas quentes de verão pensando nisso e naquilo. Vivendo pensamentos soltos de uma mente embaralhada que só faz querer amor. Em cores as palavras me percorrem a cabeça. Posso vê-las daqui! Bonitas cores escritas em forma de prosa. Palavras me preenchem. Amores me ocupam. Vazios estão por toda a parte.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Sábado de Janeiro

Vou começar com palavras que já me percorreram e inclusive já devem ter soado aos ouvidos seus qualquer dia desses. Sábado fim de tarde. O dia inteiro foi lindo. Desde do primeiro um terço do dia. Logo pela manhã acordei e dei de cara-corpo com aquele clarão de sol entre o azul. Dia quente de luz bonita. Dia bonito que merece ser vivido do lado de fora. De casa ouço as gargalhadas de minha mãe ecoarem juntas com a de Katchuca. Elas se divertiam com algo que um sábado de sol sempre traz. Quando o dia está amarelo com azul céu penso que as pessoas ficam nesse mesmo colorido. O suor não incomoda. Faz brilhar em mim o dia que corre lá fora. Estou a suar um sábado de janeiro. Aquele que se apresenta logo no início de um ano que promete. É sinto assim: esse ano promete! Há algo em mim que se renova junto com a saída daquele e a chegada deste.  Novo ano. Esperanças, sonhos e metas reenergizadas de um amor e de uma leveza incríveis. Quero mais sábados desse tipo e mais anos dessa cor. Gosto dos sábados, dos domingos e da semana que corre. Acho que bem gosto dos dias. Do dia a dia. A segunda que se cola na terça e assim sucessivamente... Rotina não me cansa. Faz-me enxergar o todo de maneira mais organizada e quase clean. Uma palavra estrangeira em meio a tantas outras que estão na ponta de nossa língua. Engraçado isso. Pode ser o curso de inglês dando resultado. Ê sábado que me dispersa e entorpece de alegrias. Fico mais bem humorada. Está tudo tão bonito lá fora. Acho que é hora de abandonar as teclas e viver o dia que me espera.

Agraciada

Penso. Desde o primeiro momento que te vi. Rememoro lembranças de um amor que me conquistou no instante e vem me atropelando festivamente há anos. A primeira vista encontrei algo profundo que me faz cambalear de gratidão, risos e afeto. Ali chegava você para iluminar meu coração e alma. Obrigada. Infinitamente obrigada meu doce amor.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Navegante

Um pouco antes da partida os navegantes juntaram-se na área externa do navio e começaram a dançar. Cantar. Movimentar os corpos a fim de aquecê-los antes da partida. Os momentos que antecedem o embarque são sempre tensos e calorosos, frescos e curiosos e invariavelmente atravessados por uma leve espera ansiosa. Fazia calor naquela tarde de sexta-feira. Aos prantos os corpos suavam. Deixavam água escorrer. Mar. Rio. Dilúvio. Maré. Poucos minutos antes da viagem cantarolamos música já conhecida por nós, olhamos uns para os outros. Sorrimos. Éramos beleza. Tons pastéis, dourado e bronze. Cabelos semi-presos, roupas semi-amassadas e corpos por inteiro. Na entrada do convés, pedras. Cantos. Pouca luz. É chegada a hora. Aos poucos tripulantes vindos de vilarejos e lugares diversos começam a ocupar o navio. Burburrinho. Silêncio. Olhares. Todos se acomodam e aguardam o soar do último apito para que seja dada a partida. Partimos... lá vamos nós. Rumo à Ítaca. A nossa Ítaca. Musas, aedos e ilhas distantes. Cantos estridentes e suaves de sereias. Calor. Suor. Família por perto. Minha mãe bem ao lado a me observar. Amigo próximo. Gente querida. Ao longo da viagem fui reconhecendo pessoas. Cumprimentando-as. Um olhar daqui um olá de lá. Éramos pura felicidade.Sentia-me estranhamente em casa. Aos poucos o corpo encharcado de suor e lágrimas ia perdendo-se em passos largos. A voz também foi desaparecendo aos poucos. Alegria e angústia juntas, lado a lado. O navio pára. Faz um forte calor. Mais um dia de viagem. Rastros de pedras, água espalhada pelo chão. Bacia de prata. Pés descalços. Ouço vozes. Danço canções. Sou recebida com abraços. Em casa estou, junto à família. Beijos, abraços calorosos e sorrisos nos ocupam. Todos ali tão próximos. Memória viva se manifesta em arrepio no corpo. Como foi bonito aquele três de dezembro de dois mil e dez. Partida Chegada. Encontros.