quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A menina que descobriu o tempo. Com cobertor ou lençol estampado?

Andava numa pressa que mal cabia em tempos e passos largos.

Não sabia lidar com o silêncio de uma conversa feita de poucas palavras.

Tinha medo de parar em respiro, pois temia ser engolida pelo próprio sopro.

Arrastava-se madrugadas a fio pensando... enchendo a cabeça de missões e coisas que pertencem ao dia.

Finalmente parou. Permitiu-se desfrutar da novidade do descanso. Da pausa. Da conversa sem palavra. Da caminhada sem tempo. Da cabeça vazia.

Emocionada escutou pela primeira vez a batida de seu coração e o barulho da barriga gemendo de fome.

Sorriu. Leve, deitou-se. Dali em diante degustou dia-a-dia o mundo como fruta doce, deixando-se lambuzar.






















quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Um parto para...






Um tanto de folha caída no chão.
Junto-me para não deixar rastros de um corpo frágil e quebradiço.
Sou forte até a última gota
Mas logo que caio desmancho inteira.
Desapareço.
Recolho-me em vida para não perder de vista as cores que me fazem mulher.
Nasci enrugada, gorda e bastante avermelhada.
Temia o escuro e o possível afastamento de minha mãe.
Carregava mochila nas costas e comida de casa na barriga.
Na cabeça pensamentos
No corpo uma felicidade que mal me cabia.

Fui feita de gente.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Balanço

Um pouco de brisa para trazer leves balanços a vida
Sensação de cabelos soltos e risos elásticos
No vai e vem deixo-me ir.
Os pés escapam o chão e caminham em direção ao céu
Meu vestido vermelho cor de laranja esparramado pelo corpo que se lança
Dança, balança, descansa e cansa.
Mal caibo em mim.

Estou destemidamente grande

Incrivelmente pequena para escapar por entre nuvens

Levada pelo movimento do ir e do vir.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Entre rosas

Logo cedo me fiz manhã. Caminhava por todos os lados à procura de um canto. Encontrei Cartola à beira, entre vestígios de um verde. Rosas, adoro recebê-las. Solitárias ou em buquê. O cheiro que delas vêm logo se faz gosto. Mas por que não falam? Entregam-se. Sem medo de despedaçar. 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Doce afeto

Entre versos, flores e amores. 
Entre aspas e cascas.
Aponto-me para o imprevisível.
Lanço-me ao delírio.
Gosto do cheiro, do gosto, do calor, do beijo. 
Da chuva que cai, da pipa que aos céus se levanta a balançar junto ao vento numa dança.
Da canoa que no rio navega, da lágrima com sal leve de sabor, do sorriso que em face altera a expressão do rosto. 
Pés por hora no chão por tempos no ar. 
Corpo que ferve em banho. Maria, salve! 
Lavo-me pelas gotas do orvalho suor que d'alma escorre. 
Ao transpirar aspiro vida.
Ao levantar desejo amor.
... amor...
... amor...
... amor...

quinta-feira, 31 de março de 2011

Chá das cinco

Aceita um chá? Preparei a mesa com aquela toalha que você tanto gosta. Tem café, biscoitos e uma xícara de água quente. Há outros prazeres que prefiro que você descubra quando estiver confortavelmente sentado. Há também mais umas cadeiras, caso queira trazer companhias. Mas se a minha já lhe deixar satisfeito...
Sento-me bem em frente à você. Fiquei nervosa de encarar a cadeira bem ao seu lado. Queimei a língua. Estou aflita. Deixei espirrar um pouco de café na mesa para dar mais cor ao nosso encontro. Estava tudo muito bem apessoado. Um arrumadinho estranho para fazer propostas, pedidos. Lançar na mesa desejos. Escuto o som do biscoito que se quebra em sua boca. Faz um barulhinho curioso. Até dei um sorrisinho para descontrair. Tentava disfarçar minha natureza doce e extremamente delicada, quase ingênua de tão pura. Minhas mãos descansavam sobre meus joelhos com medo de acordar as pernas bambas. O bolo estava tão macio como meu pensamentos naquela tarde. Como mais um biscoito e corto um pedaço de queijo. Ele toma sua segunda xícara de chá e me olha enquanto dá o seu terceiro gole. Contei um por um: dois, três, quatro. Deixei cair no chão farelos de bolo. Acho que estava a comer com a boca entreaberta. Salivando eu o olhava. Ele ali diante de mim num fim de tarde de quarta-feira. Gostaria de ficar para o jantar? Carinhosamente ele dispersou seu olhar para a janela e sorriu. 

segunda-feira, 28 de março de 2011

Pista dupla

Sou feita de pequenas e grandes andanças. No caminho como balas de leite, de framboesa e a famosa juquinha. Tiro os sapatos. Escorrego, caio, levanto, pulo, cambaleio, caminho de forma dançante e ando na contramão. Vou deixando pedacinhos de pão ao longo, mas sempre me perco na volta. Sem dar seta atravesso avenidas cheias, canteiros gramados em que é "proibido pisar". Às vezes sento no meio fio para descansar. Gosto de caminhos estreitos e curvas. Retas, por vezes, tem me dado uma leve afliação. Ah, adoro pista dupla. Gosto de companhia.