sexta-feira, 8 de julho de 2011

Balanço

Um pouco de brisa para trazer leves balanços a vida
Sensação de cabelos soltos e risos elásticos
No vai e vem deixo-me ir.
Os pés escapam o chão e caminham em direção ao céu
Meu vestido vermelho cor de laranja esparramado pelo corpo que se lança
Dança, balança, descansa e cansa.
Mal caibo em mim.

Estou destemidamente grande

Incrivelmente pequena para escapar por entre nuvens

Levada pelo movimento do ir e do vir.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Entre rosas

Logo cedo me fiz manhã. Caminhava por todos os lados à procura de um canto. Encontrei Cartola à beira, entre vestígios de um verde. Rosas, adoro recebê-las. Solitárias ou em buquê. O cheiro que delas vêm logo se faz gosto. Mas por que não falam? Entregam-se. Sem medo de despedaçar. 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Doce afeto

Entre versos, flores e amores. 
Entre aspas e cascas.
Aponto-me para o imprevisível.
Lanço-me ao delírio.
Gosto do cheiro, do gosto, do calor, do beijo. 
Da chuva que cai, da pipa que aos céus se levanta a balançar junto ao vento numa dança.
Da canoa que no rio navega, da lágrima com sal leve de sabor, do sorriso que em face altera a expressão do rosto. 
Pés por hora no chão por tempos no ar. 
Corpo que ferve em banho. Maria, salve! 
Lavo-me pelas gotas do orvalho suor que d'alma escorre. 
Ao transpirar aspiro vida.
Ao levantar desejo amor.
... amor...
... amor...
... amor...

quinta-feira, 31 de março de 2011

Chá das cinco

Aceita um chá? Preparei a mesa com aquela toalha que você tanto gosta. Tem café, biscoitos e uma xícara de água quente. Há outros prazeres que prefiro que você descubra quando estiver confortavelmente sentado. Há também mais umas cadeiras, caso queira trazer companhias. Mas se a minha já lhe deixar satisfeito...
Sento-me bem em frente à você. Fiquei nervosa de encarar a cadeira bem ao seu lado. Queimei a língua. Estou aflita. Deixei espirrar um pouco de café na mesa para dar mais cor ao nosso encontro. Estava tudo muito bem apessoado. Um arrumadinho estranho para fazer propostas, pedidos. Lançar na mesa desejos. Escuto o som do biscoito que se quebra em sua boca. Faz um barulhinho curioso. Até dei um sorrisinho para descontrair. Tentava disfarçar minha natureza doce e extremamente delicada, quase ingênua de tão pura. Minhas mãos descansavam sobre meus joelhos com medo de acordar as pernas bambas. O bolo estava tão macio como meu pensamentos naquela tarde. Como mais um biscoito e corto um pedaço de queijo. Ele toma sua segunda xícara de chá e me olha enquanto dá o seu terceiro gole. Contei um por um: dois, três, quatro. Deixei cair no chão farelos de bolo. Acho que estava a comer com a boca entreaberta. Salivando eu o olhava. Ele ali diante de mim num fim de tarde de quarta-feira. Gostaria de ficar para o jantar? Carinhosamente ele dispersou seu olhar para a janela e sorriu. 

segunda-feira, 28 de março de 2011

Pista dupla

Sou feita de pequenas e grandes andanças. No caminho como balas de leite, de framboesa e a famosa juquinha. Tiro os sapatos. Escorrego, caio, levanto, pulo, cambaleio, caminho de forma dançante e ando na contramão. Vou deixando pedacinhos de pão ao longo, mas sempre me perco na volta. Sem dar seta atravesso avenidas cheias, canteiros gramados em que é "proibido pisar". Às vezes sento no meio fio para descansar. Gosto de caminhos estreitos e curvas. Retas, por vezes, tem me dado uma leve afliação. Ah, adoro pista dupla. Gosto de companhia. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Daqui vejo rosas



As janelas estão embaçadas. Dei aquele sopro infantil que lança ar quente boca a fora e faz todo o vidro suar. Daqui de dentro vejo a roseira no jardim. Há algumas pétalas no chão. As flores fazem um dia cinza chuvoso parecer um pouco mais atraente. Sinto cheiro de terra molhada e ouço o gemido do dia lá fora. O vento esparramado pelo tempo carregando restos que descansam por lá. Não há pessoas na rua. Não há crianças, nem pés descalços a correr pelo bairro. Todos estão a dormir e eu aqui acordada a observar o dia que não passa. Esgarçado ele se estende nesta segunda-feira de agosto. 
Faz frio. Meus pés estão protegidos por meias grossas de lã que jamais pensei usar. Meus dedos dos pés estão suados e enrugados. Aquela mesma sensação de quando se fica muito tempo mergulhado em água. Visto roupas velhas, aquelas que guardamos em gavetas especiais. As gavetas das roupas usadas. As novas estão à espera ansiosa de um dia de sol. Querem passeio, querem encontros. Terrível esse preconceito com o gasto. O casaco antigo que tenho desde os doze anos e que ainda me serve vira companhia caseira, sem direito de pôr os pés na rua. De que adianta ser durável se logo logo me encanto pelo novo que chega? 
Bobagem toda essa. Mudei o rumo da prosa. Da boa conversa que estava afiando comigo mesma e partilhando em algumas palavras aqui, com você. Os pensamentos são assim mesmo, passageiros como os andarilhos que ficam de lá pra cá. E como eu, que vou de um ponto ao outro de uma história sem me preocupar com o rumo que ela vem tomando. Acho que sou uma mistura de roseira no jardim, dia chuvoso, roupas antigas e novas. Emaranhado de coisas simples que somos. Sinto-me como um rio prestes a desaguar. Bonito o encontro generoso do rio com mar. Vim de lá. Das águas salgadas, dos dias ensolarados e das manhãs quentes logo tão cedo. Ainda estou aqui. Parada em frente a embaçada janela da sala. Estou com o olhar disperso. Ele atravessa o vidro e descansa sobre uma rosa solitária. Nada vejo. Olhos abertos e poucos vivos. Embaçados. Pensamentos pouco claros e limpos como o dia de hoje. Acho melhor voltar para cama. Que venham bons sonhos.