Rendada. Estendida. Numa casa de madeira, com cheiro de guardado, ela se põe sobre a comprida mesa da cozinha. Encontro. Passagem. Pratos quentes e frios. Maçãs vermelhas. Sobre ela tudo se deita. Descanso de prato. Talheres. Copos de vidro embaçados. Guardanapos. É chegada a hora do banquete.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Com amor, bebê.
Um passo bem dado. Um verbo bem trocado. Um abraço apertado. Um olhar compartilhado. Uma ideia bem exposta. Uma cara bem disposta. Uma música que enrosca. Uma dança que me encosta. Faço disso disso descanso. meu prato. alimento. pedaços. inteiro. corpo-coração. família. amor. recanto. nutrição. enche a intuição. embala a memória. inventa história. recria espaços. reinventa passos. renasce no trajeto. colore objetos. pinta o quarto. e de novo o prato. cheio. de amor. de amor. de amor. de amor.
Agora uma nova nota arrebata nossa história. alfazema. bumbum. água. cocô. sorriso sem dente. abraço bem quente. palavra balbuciada. choro. riso. grito. manu. mamãe. manhê. nunu. bebê. vem. tem colo. vem. tem colo. vem. tem amor. muito. muito. amor. bebê. amor. bebê.
E assim a gente se reinaugura para a vida. Com amor.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Manu
Sabe aquele presente que vem embalado com cores, cheiro de novo e que te suspende na delícia da curiosidade? Sabe aquela música que te leva pra longe, faz o corpo-coração balançar e convida até seu pensamento pra uma dança? Aquele abraço, embolado no beijo, que se desenrola num choro e de repente te leva para um caminho de risada sem fim? Sabe aquele laço, de afeto e puro amor, que nos enreda em uma cumplicidade inexplicavelmente forte e tão nossa que te faz ter a certeza do para sempre? Existe. Tem nome. E uma beleza tamanha. Tão enorme que entendeu bem logo sua função de colorir o mundo. Isso tudo é irmã e a vida generosamente me presenteou com
o que há de melhor, Manu.
Sabor framboesa
E lá foi ela abraçar o mundo com seus braços magros e miúdos. Registrava os sonhos em uma folha de papel com medo de perdê-los de vista. Carregava nas costas o abraço ganho naquela segunda-feira passada que ainda lhe toca tão fresca.
Esgarçava um sorriso bobo sem o menor motivo ou causa aparente. Bem se acostumou com os sorrisos sem justificativas. Aquele que vem por que vem. Sorri pelo simples prazer de sorrir.
Ah, nada como a alegria de viver um dia comum, numa tarde comum e num lugar conhecido. Toda essa possível obviedade ainda a encanta. E canta. E dança. Coloca os fones de ouvido no fundo daquelas orelhas curiosas pelo novo e pelo nem tão novo assim e faz da sua música trilha sonora do mundo que vê. Que sente. Que vive. Que experimenta. A companhia de toda a gente do mundo a faz se sentir em casa. Até o balanço do caminhar muda. Sabe aquele balanço que gastamos apenas no quarto e na área de serviço da casa? Ela usa. Serve-se de vida e de corpo bambo aonde quer que esteja. Aonde quer que seja.
terça-feira, 17 de abril de 2012
sábado, 3 de março de 2012
Caminho
Fez do corpo inteiro coração. A cada pulso hilariante escapavam-lhe passos que faziam de seu caminho dança. Tinha medo do risco, ainda que cedo levantasse para correr mundo afora. Perdia-se. Renovava-se. De medo e coragem era feito. Da raiz dos pensamentos até a sola desterrenada do pé. Era questão de tempo. Passageiro ou preguiçoso? Era preciso certa desmedida. Um pouco de descontrole e falta de ritmo diante da vida. Essa que sorria como se pedisse calma. A próxima estação será repleta de flores.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Ainda pequena descobriu a vida
Houve um tempo em que a tempestade escorria pelas canaletas do corpo e pela janela dos olhos da menina. Ainda pequena, bem cedo, descobriu a dor. A dor que não se vê. Nada de feridas, joelhos ralados ou machucados conquistados após a correria suada pelo quintal. Era uma dor silenciosa que perambulava pelo corpo miúdo que mal se cabia em pé quando caía no choro. Era uma dor tão dura que nem tinha cor.
Logo descobriu, pé ante pé, que geniosa e cuidadosamente o tempo passa. E cura. E guarda. E lança. E transforma. Faz da gente lugar, de passagem e de sonhos. Faz da gente corpo vivo. Que sente, que mobiliza, que se deixar afetar, que se reconhece como recanto de amor.
Logo a tempestade se fez chuva fraca até virar chuvisco. Os olhos ainda marejam, mas a menina não mais teme a dor. Sabe que se há movimento, há vida. Descobriu ela, bem logo, que para ser vivo é preciso deixar-se acontecer.
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