domingo, 26 de setembro de 2010

E assim se fez o parto

É bom saber que se vem ao mundo já com pessoas queridas à sua espera. Nem ao menos conhecem seu rosto e já a acolhem com um abraço caloroso de amigo de infância. Chego e logo ao abrir dos olhos encontro traços comuns aos meus desenhados em faces que estão para além de mim. Já existia nesse grande mundo novo, no qual acabo de chegar, uma família rendada por linhas variadas e coloridas. Essa família que chamo de minha. Deram-me nome, água, colo e amor eterno. Presentearam-me com roupas pequeninas, sempre com a estranha predominância do rosa (cor de bebê-menina achavam eles), que mal mal cabiam em mim. Nasci grande, gorda e enrugadamente rosada, mesmo assim consideravam-me parecida com um pai que pouco ainda conhecia., mas  que de primeira já amei. Mamãe sempre me guardou naquela sua grande barriga-casa, logo já havia certa intimidade entre nós. Minha primeira e grande confidente era a pessoa que eu mais iria amar por toda a vida. A intimidade entre nós era tão grande, que logo logo ela confiou-me um presente que ela mesmo produzira anos antes de eu nascer. Artesanalmente ela me fez irmã. Entregou-me Manu de presente e disse surrante em meu ouvido: cuidem-se..Assim imagino eu. Acho bonito pensar coisas que minha mãe teria me dito quando ainda era muito pequena. Cabeça de menina tende a guardar pequenos prazeres e histórias. Aquelas duas, tão lindas, já eram parte de mim. Papai também já me ocupava. Ah, havia também vovó. Aquela que coincidentemente era também um pouco enrugadamente rosada como eu. Não entendo porque as pessoas não perceberam isso. Naquele início de vida eu era muito mais vovó do que papai. Com o passar do tempo os traços de meu rosto ganharam formas daquele homem que também, artesanalmente, havia me feito. Curiosamente saltavam-me da boca palavras inventadas, nascidas de minha liberdade de criança. Numa dessas comecei a descobrir a graça da conversa. Do bate-papo descompromissado com alguém que se quer por perto. Ela me escutava. Era minha querida ouvinte. Logo nomeia-a Katchuca. Docemente ela entrou na brincadeira da sonante palavra viva de criança e deu-me novo nome: Calite. O som me interessava. Ela me conquistou para sempre.

Navegante eu ia caminhando pelas curvas da tão recente vida. Passos curtos de menina a desequilibrar a cada novo avanço. Senti o gosto da lágrima. A delícia do sorriso solto. Finalmente acho que nasci. Logo na chegada, também já encontrei primos, tios e tias, amigos, até padrinho e madrinha eles já tinham separado para mim. É engraçado pensar que você já existe antes mesmo de chegar ao mundo. Se você inesperadamente sorri por causa de toda aquela situação estranha, uns fotografam, outros escrevem e muitos choram. Quantas espectativas precedem uma chegada. Chegando ao lar encontrei quarto para mim, cama pronta, leite disponível em seio de mãe para bebê embebedar-se e muita gente, que sem motivo qualquer,  me amava. Ah, que delícia! pensei eu. Cheguei em casa.

sábado, 25 de setembro de 2010

Viagem

De malas arrumadas parti para uma breve viagem. Poucas roupas, água de cheiro e algumas memórias recolhidas em uma caixinha amarela enrolada com uma bela fita dourada. Carrego pequenos rastros e vestígios de imenso amor que colorem e ocupam todos os dias de minha vida. Pessoas queridas, palavras doces e grafias descansadas em cartas antigas que ainda guardo na última gaveta do armário. Antes da partida observo cada canto da casa e despeço-me dos bichos e de toda a gente. Beijo na bochecha de mãe e saio. Abandonada no tempo e no vento, lançando-me ao prazer e desprazer de viver o desconhecido. Não é nada fácil ceder momentos-só para aquilo que tanto se gosta. Mas era preciso olhar de cima o que sempre ao meu lado está. Foi bom. Bonito. Sinto-me agradecida. Aliás, foi essa viagem que me fez entender o que é agradecimento. Palavra viva, manifesta em corpo acordado e que se curva diante do outro na mais pura alegria da carícia. Sentir-se acareciado por aquilo que do outro vem.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Salto

Um tanto de folhas espalhadas pelo chão e lançadas ao vento. Tempo. Nele acomodo o cansaço de dias corridos e mal dormidos. De noites estreitas e de cobertores curtos. Cubro o pé gelado em busca de maior conforto. Tento entregar o corpo dolorido as curvas estranhas da cama. Mal se deita já é hora de despertar para o dia. É preciso estar de pé ainda que a cabeça esteja na cama. Grudada no travesseiro branco que a esta hora já deve estar guardado no armário. A semana já começou e eu ainda vivendo o fim de semana que passou. Será que está na hora de me desprender do tempo, que tanto falo, e me jogar no vazio da não marcação das horas? Quero o gosto de música antiga embalando meus dias e noite de ninar. Quero dançar disforme a música. 

sábado, 21 de agosto de 2010

Nascidas de Leila

Diante da espera absoluta, sentada em uma cadeira bonita de madeira, com almofada acolchoada vermelha com tons em laranja, adormeço. Linhas se espalham pelo tapete da sala. Estou a tecer um casaquinho de lã para o filho que ainda nem tenho. Faço sapatinhos para agasalhar pequeninos pés. Tranquila espera daquilo que me faz lembrar o futuro. Mulher-canguru que somos. No ventre materno nosso carregamos como que em sacolas bonitas de feira o mais belo fruto. Cheiro doce de fruta tirada do pé. 
Tenho uma irmã poucos anos mais nascida que eu. Ela veio ao mundo esperada e bem querida. Minha mãe a aguardava sentada no sofá da sala conversando com aquela gigante barriga-casa que acolhia a pequena Manu. Eram conversas longas que atravessavam a madrugada e terminavam com mistura de bocejos e gargalhadas junto ao nascer do sol. Hoje, a pequena encontra-se beirante às margens de sua própria casa e vida. Tece fragmentos de histórias e lembranças em sua pequenina casa de pouco cômodos. Juntou-se a outro menino, bem nascido antes de mim. Hoje juntos partilham de momentos comuns. Bonitos. Raros. Musicais. São escritas sonantes de suas histórias. Tecidas em versos e palavras mais que sonoras, palavras vivas. Desse enlace há de nascer boa coisa. Menino ou menina docemente eletrizante. Embalado por canções de extra-ninar.

sábado, 7 de agosto de 2010

Corpo brando

Estava eu em febre alta numa noite longa de lua fina. Noite daquelas em que o céu está em azul breu e o clarão da lua vem banhar o meu quarto, que fica logo aqui no fundo da casa. Atravessa a janela entreaberta. Gosto de um pouco de vento pela noite. Gosto de respirar o branco da lua. Gosto de ar. Tenho medo de sufocar-me em palavras. De deixar-me engasgar pelo anseio de palavras bem e mal ditas. Há calor em meu corpo. Estou em fogo laranja ou já sou brasa? Acho que virei cinza. Mas não temo. Renasço logo de manhãzinha. Pego um livro para ler, logo adormeço. Entro em estado de vigília ao me embebedar de palavras que não vem de mim. Voz aguda em variável nota dó. Tece palavras graves para a menina que estás a escutar. Gosto de ouvir coisas bonitas. Palavras ritimadas e vozes que não vem de mim. Porém acho que sou pouco resistente. Livro. Abro. Pouco leio. Adormeço. Penso nele enquanto sonho. Acordada sonho enquanto deito. Ele me acompanha pelas manhãs frias de inverno. Na verdade atravessa comigo todas as estações. Gostamos de cores. Ele gosta de filmes. Eu pouco os vejo, tenho sono. Sonolência audio-gráfica que me persegue. Ele sorri da minha falta de competência em me manter acordada. Gosto quando ele sorri. Gosto quando ele me beija. O corpo segue quente nessa madrugada fria de agosto. Vou fechar os olhos e esperar o(a)manhã que vem. Alguém virá me acordar. Durma com os anjos.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Saudade

O pensamento corre solto junto ao corre-corre do dia que atravessa a vida lá fora. Sábado com cara de domingo. Domingo já com gosto da segunda que ainda vem. O tempo parece arrastado. Rompeu com todos os seus compromissos. Tempo anárquico que se nega a passar depressa quando o que me espera  lá fora desse meu coração apertado de saudade é o cheiro de chuva. O calor. O amor. Pensar no caminhar do tempo me distancia de um viver no agora. Fico à espera, à espreita, de rabo de olho, esperando, ansiosamente esperando. Vai tempo, vai... às vezes é tão veloz e avassalador atropelando tudo e passando por cima de meus planos que eram futuros até dois minutos atrás e agora são tão presentes. Vai, segue em frente sem medo. Não pare para o descanso porque assim você me atrasa. Meu querer amar é ansioso. Deixa o dia chegar.  Há muita coisa boa a minha espera. Lá fora! 

sábado, 10 de julho de 2010

Um corpo que pede samba


Meu corpo inundado de samba está. Ritimado por Cartola, Noel e Arlindo. Nasci no berço dos bambas. Lá tem o verde e branco do Império, o azul e branco da Portela e também da pura Tradição. No coração de todo sambista sinto que há um tamborim no lugar. Aquele que bombeia o balançar dos pés, dos quadris e de da voz para um corpo inteiro que canta. Que faz samba ecoar. Madureira é também o meu lugar. Gosto da voz suave do querido mestre Arlindo a cantar o nosso lugar. Muito caminhei por lá. Lembro-me dos domingos de sol com a sonora trilha dos grandes mestres. Daquela batucada que sapateava no miuidinho. Daquela grande celebração. Pipas coloridas no ar, picolés a derreter na boca, pés sujos e descalços, bicicletas, patins, bola, futebol, mengão, crianças, cachorros, adultos, ávores, sol, calor, ardor, fervor, gente. Pequena criança que era já se encantava com aquele domingo-de-samba. Quando ouço samba danço vozes, cores, amores, paixões, alegrias, sensações, afeto. Danço e sambo mangueira. Gosto do verde e rosa. Cores de um mestre. De uma vida de samba cantada por Cartola. Assim como ele, a sorrir pretendo levar a vida. O samba flui em mim como um rio. Livre. Entregue. Acompanhado apenas pela verde margem que o segue. Sou um corpo que pede samba.