terça-feira, 23 de novembro de 2010

De volta à casa


Reencontro a praia, o mar, o calor, o bafo de calor, o suor que mela, o samba e os amigos de para sempre. Sinto amor de irmãs e sorriso de pai. Danço no tapete da sala com a Lelê e ela dá umas risadas ótimas. Ouço o chiado de xis que se arrasta nas palavras e vem uma alegria boa. Minha cidade é maravilhosa e continua lindo. Vou até Madureira lembrar do meu lugar. Durmo com o blusão do meu pai e ele coça as minhas costas. De Ítaca me aproximo.  Minha Ítaca tem sotaque carioca. Ai, que vontade de abraçar a Nunu! Almoço de domingo que se estende até as conversas do café da tarde da segunda. Cheiro de lanche. Pão de Açúcar. Redentor que nos proteja e livrai-nos de todo mal. Mal chego e logo arrepio. Mal observo e tanto percebo. Cheguei em casa. Em terra minha, em cidade que me ocupa. Aquilo que antes se apresentava a mim como mais do mesmo, agora, incrivelmente, salta aos meus olhos como paisagens vivas. Lágrimas ao atravessar as linhas - amarela e vermelha - que cortam esse Rio que tomo como meu, como parte de mim. Seria possível isso se talvez estivesse por perto? Acho que a distância nos reapresenta a nossa própria casa. Como passei a observá-lo de maneira mais cuidadosa. Aquilo que escapava-me as vistas, agora é pintura que da cor à memória. Viva! Pôr-do-sol no Arpoador e o samba na Portela. Tom, Vinícius, Cartola, Jamelão e tantos outros que cantavam o Rio. Salve toda gente desse lugar e  todo lugar dessa gente. Salve a simpatia carioca! Salve Jorge!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Doce três de novembro





Lá nasceu. Era noite do dia três de novembro de 2007. Ainda se via a sobra de um feriado atravessando um sábado inquieto. Um fim de semana tão querido e pouco ocupado. As horas passavam e não se via nem sinal de abraço. Apenas o aguardava em uma angustiante espera. Encontrei-o. Depois de tantos achados e perdidos senti o primeiro suspiro de amor. O primeiro olhar, daquele que tanto queria, cruzava-se com o meu. Tratei de vestir a roupa mais bonita e igualmente confortável. Nesse momento de tanta alegria sentia-me pela primeira vez reconhecida. Um reconhecimento quase farejante. Ele queria toque. Eu queria toque, amor e beijo. Deu certo. Acho que ele gostou de mim. Finalmente, após um ano e meio de namoro solitário havia encontrado meu par. De fato ele existia e naquele momento mostrava-se disposto e levemente animado em seguir em frente. Curiosamente eu entendia a sua sutíl dificuldade em caminhar junto. Sua pouca idade o fazia ter medo do escuro. Do vazio. Do encontro. Um com dezessete e outra prestes a completar dezoito. Número pequeno que se fazia infantil diante de um amor grande. Como encarar aquilo que chega cedo e te solicita tão logo? O amor que vem logo de manhãzinha e me ocupa até o entardecer. Como posso querê-la para sempre se ainda pouco a conheço e pouco de todo o muito do mundo também? Era preciso viver. Ainda havia muita vida pela frente e não era possível esbarrar em uma amor naquela altura. Deu certo. O amor à primeira vista tem me ocupado por anos a fio. Quando meus olhos descansaram sobre ele, na primeira vez em que o vi, senti que algo de novo em mim nascia. A estranheza de um amor desconhecido e nem sequer ainda vivido despertava-me lembranças e memórias. Simplesmente já o amava sem nem ao menos lhe contar meu nome. Prazer, você aceita tomar um sorvete comigo? Deu certo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Árvore solitária

Grandes montanhas verde musgo. Tapete gramado que encobre o mar de montanhas. Para além delas sinto cheiro de água limpa e salgada, de oceano mergulhante no mais profundo azul. Em meio a tantas e tantas montanhas irmãs encontro uma na qual brotou uma árvore solitária. Ela tem o caule fino e sua copa é bastante larga e ocupada por folhagens nos mais diversos tons de verde. Vejo uma menina sentada sob sua sombra refrescando-se com o ar do dia e com as palavras doces do livro que lê. Nas mãos finas de menina moça ela carrega seu livro de poucas páginas. A capa tem o tom de rosa claro mesclado com vermelho telha. Não sê vê desenhos, apenas poucas palavras. Frase curta que dá nome ao livro. A menina sorri, um daqueles sorrisos entre lábios. Seus cabelos estão soltos e seus pés descalços. Encostada no tronco da fina árvore com a cabeça levemente inclinada ela lê. Alternância de leitura e cochilo. Livro e leve sono. Seus olhos descansam sobre sua face de pouca idade. É fim de tarde. O sol atravessa as folhas desenhando no ar caminhos de luz. Há um leve calor. A suar estão as mãos da menina. O livro escorrega dançante. Não cai. Não alcança o tapete verde da montanha. Apenas cambaleia entre as mãos da menina. O sol começa a se despedir. Já é quase noite. Uma fatia de lua nasce no céu trazendo com ela uma pequenina estrela brilhante. O céu é uma mistura de dia e noite. O amarelo alaranjado com vestígios de vermelho se mistura ao azul claro e breu. Já é noite. A menina levanta. Embaixo de seu braço direito, entre braço e corpo, está o livro. Fechado. Daqui se vê apenas a capa.  

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dias corridos


À esperar estou. Sempre. Navegando por entre linhas e linhas de páginas em branco, deixando marcas de minhas impressões do dia. As palavras que me saltam da boca são vestígios de memória boa e coração frágil. Sensível ao vento e ao tempo. Sou bastante ocupada durante os dias enfileirados da semana.
Na segunda renasço para a brancura dos novos dias, desconhecidos ainda ao meus olhos. Porém, sempre carrego pedaços, restos do fim de semana que passou.
Na terça de fato abro os olhos, bem cedinho, logo pela manhã e saio na caça de afazeres perdidos.
Na quarta estou nova em folha. Sinto-me como o verde de uma fruta pré-recolhida do pé. Ainda não muita madura. Já é meio de semana e já me anseio para o fim de semana próximo, que logo em breve chegará.
Na quinta sorrisos já me tomam facilmente. Não temo o dia longo e denso que me espera. Salto da cama, lavos os cabelos, tomo café bom e caminho por cada curva do dia, que termina bem tarde da noite.
Sexta é festa. Mesmo em dias frios e cinzas a sexta é ensolarada dentro de mim. Estampo alegria fresca no rosto, visto minha melhor roupa Rio de Janeiro e saio pelas ruas navegante a desbravar cada curva do imenso mar. Mergulho. Refresco-me. Do nascer até o momento da poente sexta descansar aproveito. Danço, sorrio e brilho alegremente. Sem ao menos me cansar ou arranhar minha voz rouca, herança genética de família.
Abraço o fim de semana que chega. Dou-lhe boas vindas e recebo-lhe com flores colhidas no jardim. Sábados e domingos marcados na lembranças. Registro que não escapa aos olhos do olfato e ao doce sabor de meus olhos. Impressos ficam os fins de semana em minha cabeça. Momentos nascidos de sábados e domingos bem vividos.

domingo, 26 de setembro de 2010

E assim se fez o parto

É bom saber que se vem ao mundo já com pessoas queridas à sua espera. Nem ao menos conhecem seu rosto e já a acolhem com um abraço caloroso de amigo de infância. Chego e logo ao abrir dos olhos encontro traços comuns aos meus desenhados em faces que estão para além de mim. Já existia nesse grande mundo novo, no qual acabo de chegar, uma família rendada por linhas variadas e coloridas. Essa família que chamo de minha. Deram-me nome, água, colo e amor eterno. Presentearam-me com roupas pequeninas, sempre com a estranha predominância do rosa (cor de bebê-menina achavam eles), que mal mal cabiam em mim. Nasci grande, gorda e enrugadamente rosada, mesmo assim consideravam-me parecida com um pai que pouco ainda conhecia., mas  que de primeira já amei. Mamãe sempre me guardou naquela sua grande barriga-casa, logo já havia certa intimidade entre nós. Minha primeira e grande confidente era a pessoa que eu mais iria amar por toda a vida. A intimidade entre nós era tão grande, que logo logo ela confiou-me um presente que ela mesmo produzira anos antes de eu nascer. Artesanalmente ela me fez irmã. Entregou-me Manu de presente e disse surrante em meu ouvido: cuidem-se..Assim imagino eu. Acho bonito pensar coisas que minha mãe teria me dito quando ainda era muito pequena. Cabeça de menina tende a guardar pequenos prazeres e histórias. Aquelas duas, tão lindas, já eram parte de mim. Papai também já me ocupava. Ah, havia também vovó. Aquela que coincidentemente era também um pouco enrugadamente rosada como eu. Não entendo porque as pessoas não perceberam isso. Naquele início de vida eu era muito mais vovó do que papai. Com o passar do tempo os traços de meu rosto ganharam formas daquele homem que também, artesanalmente, havia me feito. Curiosamente saltavam-me da boca palavras inventadas, nascidas de minha liberdade de criança. Numa dessas comecei a descobrir a graça da conversa. Do bate-papo descompromissado com alguém que se quer por perto. Ela me escutava. Era minha querida ouvinte. Logo nomeia-a Katchuca. Docemente ela entrou na brincadeira da sonante palavra viva de criança e deu-me novo nome: Calite. O som me interessava. Ela me conquistou para sempre.

Navegante eu ia caminhando pelas curvas da tão recente vida. Passos curtos de menina a desequilibrar a cada novo avanço. Senti o gosto da lágrima. A delícia do sorriso solto. Finalmente acho que nasci. Logo na chegada, também já encontrei primos, tios e tias, amigos, até padrinho e madrinha eles já tinham separado para mim. É engraçado pensar que você já existe antes mesmo de chegar ao mundo. Se você inesperadamente sorri por causa de toda aquela situação estranha, uns fotografam, outros escrevem e muitos choram. Quantas espectativas precedem uma chegada. Chegando ao lar encontrei quarto para mim, cama pronta, leite disponível em seio de mãe para bebê embebedar-se e muita gente, que sem motivo qualquer,  me amava. Ah, que delícia! pensei eu. Cheguei em casa.

sábado, 25 de setembro de 2010

Viagem

De malas arrumadas parti para uma breve viagem. Poucas roupas, água de cheiro e algumas memórias recolhidas em uma caixinha amarela enrolada com uma bela fita dourada. Carrego pequenos rastros e vestígios de imenso amor que colorem e ocupam todos os dias de minha vida. Pessoas queridas, palavras doces e grafias descansadas em cartas antigas que ainda guardo na última gaveta do armário. Antes da partida observo cada canto da casa e despeço-me dos bichos e de toda a gente. Beijo na bochecha de mãe e saio. Abandonada no tempo e no vento, lançando-me ao prazer e desprazer de viver o desconhecido. Não é nada fácil ceder momentos-só para aquilo que tanto se gosta. Mas era preciso olhar de cima o que sempre ao meu lado está. Foi bom. Bonito. Sinto-me agradecida. Aliás, foi essa viagem que me fez entender o que é agradecimento. Palavra viva, manifesta em corpo acordado e que se curva diante do outro na mais pura alegria da carícia. Sentir-se acareciado por aquilo que do outro vem.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Salto

Um tanto de folhas espalhadas pelo chão e lançadas ao vento. Tempo. Nele acomodo o cansaço de dias corridos e mal dormidos. De noites estreitas e de cobertores curtos. Cubro o pé gelado em busca de maior conforto. Tento entregar o corpo dolorido as curvas estranhas da cama. Mal se deita já é hora de despertar para o dia. É preciso estar de pé ainda que a cabeça esteja na cama. Grudada no travesseiro branco que a esta hora já deve estar guardado no armário. A semana já começou e eu ainda vivendo o fim de semana que passou. Será que está na hora de me desprender do tempo, que tanto falo, e me jogar no vazio da não marcação das horas? Quero o gosto de música antiga embalando meus dias e noite de ninar. Quero dançar disforme a música.